segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

Foi só isto mas para mim chegou......

Depois de tanto se especular, talvez alguns achem que o que vou contar não tem tanta importância, como de inicio poderia parecer, mas o que conta é o sentimento de culpa que o acontecimento me deixou.

Conduzia até casa a horas algo tardias, a estrada que me conduzia é algo deserta a horas tão avançadas, ao entrar numa curva mais apertada, reparo num vulto na esquina da estrada. O vulto ao sentir o aproximar do carro virou o pescoço na direcção da luz. Os meus olhos encontraram-se com os seus e reparei na familiaridade daquele rosto.

Todas as pequenas localidades têm o seu louco nacional, é quase uma mascote, um fulano inofensivo que por alguma agrura da vida tem algo que o distingue dos ditos "normais".Neste caso tratava-se do Célio, um rapaz com aproximadamente 28 anos que em determinada altura da vida sofreu um acidente de mota que o obrigou a transportar uma placa de titânio na cabeça, pelo menos é o que reza a lenda. Para piada geral o Célio é ainda filho do mecânico alcoólico lá do sítio, os locais não resistem à piada fácil de dizer que foi o pai que lhe colocou a placa na "tola".
Sendo proprietário de uma beleza afastada dos requesitos ditos normais, e de um discurso pouco coerente, facilmente se transformou num alvo fácil de chacota, no entanto é talvez das pessoas mais simples e bem educadas que pela zona habitam.

Mas voltando ao inicio, depois de ter percebido quem era que estava na berma da estrada, a 5km da sua casa, com um frio de rachar dentes, eu simplesmente segui viagem, nem sequer parei para perguntar se precisava de boleia. Cada metro que avançava dizia a mim mesma que devia voltar para trás mas não o fiz.
Não consigo perceber porque, …. Comodismo, desinteresse, frieza de espírito, não encontro razão, para não ter parado. Passado poucos minutos estava já deitada na minha caminha quentinha de olhos arregalados a fixarem o tecto, a pensar o quanto má e insensível tinha sido.
O remorso ainda não passou só espero que ele tenha chegado bem a casa.


Pode não ser muito mas ainda não me saiu da cabeça.

5 comentários:

Palavra disse...

vê a vida com um sorriso :) pelo menos não o atropelaste.. hehe

rspiff disse...

Eu até sou um tipo que tem piada e com sentido de humor e noutro dia diria uma qualquer brincadeira, mas sabes...sei exactamente o que sentes e isto não é para te sentires pior, tu não ficaste indiferente, só não tiveste coragem de parar. È este mundo que nos deixa assim, com medo...

Eu uma vez (e pior porque foi fora de Lisboa e não posso pôr as culpas na “cidade que desumaniza”) ia para casa e dei com um senhor (muito alcoolizado, mas enfim...) deitado no chão e a sangrar da cabeça...e o que é que o rapaz aqui fez? Seguiu caminho...com medo, com vergonha, com sei lá mais que desculpas...

Mas olha, nem tudo é nossa culpa, a cidade desumaniza mesmo e o medo está presente, e nem sempre conseguimos ser boas pessoas. Mas vale a pena ir tentando, pode ser que consigamos ter mais motivos para nos orgulhar-mos do que para nos envergonhar-mos.

E agora não penses mais nisso rapariga, a vida é mesmo assim, imperfeita...mas não necessariamente má :-)

Desinformador disse...

Parece que toda a gente pensou que fosse algo realmente maldoso!

Bom já foi teres 'parado' para pensar... mas lembra-te que provavelmente o Célio vai estar 'perdido' ali onde o viste durante muitas outras noites...

Já agora, quem faz a piada do pai alcoólico ainda é mais estúpido. Até parece que uma oficina de vão de escada tem placas de titânio assim avulso... se soubessem que vale quase tanto como ouro... enfim, a estupidez humano não tem limites.

Flor disse...

Uma maldade que te incomodou e te fez pensar ....
É assim que crescemos.
beijo doce

Luís disse...

Sabes, enquanto profissional eu deveria ser mais prestável que os outros quando há uma situação de feridos na rua por exemplo. Mas acreditas que é exactamente o contrário...fujo dessas situações a 7 pés. Se houver um acidente, desde que já lá esteja algum curioso pronto a ajudar - sim, porque a maior parte das pessoas não param por desejarem ajudar, mas levados pela inacreditável curiosidade pa qq acidente que o povo português tem -, eu limito-me a seguir em frente como se nada fosse comigo.

Claro que depois tb fico com remorsos, mas não é tão grave quanto isso.Aliás, só o facto de ficares a pensar nesse pormenor antes de te deitares, mostra bem que deves sser pessoa de bom coração.

beijinho de amigo desiludido, que estava à espera de uma maldade a sério...